Folha de S.Paulo - caderno Ilustrada
São Paulo, segunda-feira, 27 de janeiro de 2003
MÚSICA
Em debates no evento ocorrido em Cannes, pequenas gravadoras buscam alternativas para a distribuição de seus CDs
Midem reforça luta dos independentes por espaço
ISRAEL DO VALE
ENVIADO ESPECIAL A CANNES
A artilharia independente brasileira que tomou os palcos do Midem deve espalhar estilhaços para todos os lados. Animados com sondagens iniciais para shows ou distribuição de seus discos em outros países, os sete grupos e/ou artistas que alternaram-se nas salas Ambassadeurs e Mediterranée do Palácio dos Festivais, em Cannes, começam a contabilizar o investimento da passagem pela feira, encerrada na última quinta-feira.
Tradicionalmente, o espaço do Midem serve como uma grande sala de reuniões para contratos que só são fechados de fato meses depois. Como parâmetro, a participação de cinco selos, em 2002, rendeu nada menos que 277 reuniões ao longo do ano. Só a minoria vira negócio, claro.
Este ano, com a visibilidade do "efeito país-tema", a estimativa é de que esse número seja multiplicado em algumas vezes. A começar de que estiveram na feira, de saída, quatro vezes mais empresas.
Pode parecer bobagem, mas distribuição é, junto da execução em rádio, o principal nó que atravanca a cena independente, num quadro em que os pontos-de-venda das grandes redes 1) cobram "luvas" (em alguns lugares de até R$ 40 mil) para que qualquer gravadora coloque seus discos na estante; 2) só se interessam por produtos de giro rápido -música da moda; 3) os pequenos lojistas seguem em processo de extinção.
A passagem do Brasil pelo evento foi chamativa. A decoração temática em pontos estratégicos da feira teve entre seus acertos exposições fotográficas de artistas brasileiros (do acervo de Mario Luiz Thompson) e painéis com grafismos extraídos de paisagens, do fotógrafo Zig Koch -que, não fossem excepcionais, só reforçariam o chavão do cartão-postal.
Dois reparos precisam ser feitos: foi incômodo, ainda que no terreno da "falha de comunicação", o convite e o desconvite a Gilberto Gil para uma canja no palco. Talvez naquele contexto ele não coubesse, realmente, embora o próprio ministro já tenha insinuado que estuda fazer dobradinhas em suas missões diplomáticas. Mas faltou certo cuidado no trato -não só com o cargo, mas com a pessoa.
Por fim, como país-tema, talvez o Brasil merecesse um estande mais espaçoso. O espaço acanhado em relação, por exemplo, ao dos indies britânicos foi insuficiente para acomodar músicos e homens de negócio com conforto. Enfim, foi um bom "só o começo" de uma nova fase da saga indie. Há muito a fazer.
Sábado,
20 de Janeiro de 2007
Novos Rumos
Estatísticas apontam declínio das vendas em CD's e aumento do comércio on-line.
Veja esta notícia do Terra:
http://musica.terra.com.br/interna/0,,OI1359640-EI1267,00.html
Quinta-feira,
14 de Dezembro de 2006
Um golpe no CD
A
música sofre impactos da distribuição
na Internet – e esta revolução,
como todas as outras, também faz suas
vítimas.
Durante
mais de cem anos, desde a criação
do velho disco de vinil, grupos musicais produziam
fitas caseiras e batiam na porta das gravadoras.
Se os Beatles chegaram a ser rejeitados por
uma gravadora, quantos talentos não
terão se perdido?
Na
era digital, quem avalia é o público.
Sites como o My Space, Napster ou You Tube
são o primeiro palco. Jay-Pee conta
que as gravadoras só entram na jogada
quando o grupo tem história –
e, de preferência, alguns milhares de
fãs.
Foi
assim a rápida ascensão da banda
inglesa Arctic Monkeys. Eles lançaram
suas músicas de graça na rede
e, antes do primeiro disco, já eram
mundialmente famosos.
Fenômenos
musicais exclusivos da Internet são
cada vez mais recorrentes. A dupla Gnarls
Barkley chegou ao topo das paradas britânicas
sem jamais ter gravado um CD.
Não
é por acaso que o disco pesa cada vez
menos no orçamento de bandas e gravadoras.
Depois
de bater o recorde histórico de US$
730 milhões, há seis anos, as
vendas de CD entraram em declínio.
O faturamento caiu em velocidade inversa ao
crescimento das vendas de canções
avulsas pela Internet; no ano passado, ficou
abaixo de US$ 600 milhões.
Depois
de seis anos com as vendas em queda, a supremacia
do CD está com os dias contados. Dados
da própria indústria mostram
que as vendas de música pela Internet
já respondem por quase 40% do mercado
americano.
A
última loja
O CD certamente não
vai desaparecer mas, de acordo com analistas,
terá papel cada vez menos relevante.
E como mudanças históricas são
marcadas por grandes eventos, pode-se dizer
que, neste momento, estamos diante de um deles.
Mais
do que uma loja de discos, a Tower Records
era um ponto turístico em Nova York,
e em dezenas de cidades americanas. O principal
motivo para a falência foi a competição
com o mercado online. A Tower foi vendida
para uma rede americana durante um leilão
por US$ 134 milhões. Até o fim
do ano, todas as 89 filiais vão virar
loja de departamentos.
Depois
de 46 anos, a megaloja faz sua última
liquidação. “Os CDs ainda
fazem parte da minha vida, mas as lojas vão
fechar por causa das vendas online",
profetiza um cliente, guitarrista, enquanto
o aparelho portátil dele toca as músicas
recém-gravadas da Internet.
Mas
não há motivo para nostalgia.
O que se diz é que a música
está sendo reinventada. Quer melhor
exemplo do que um clipe que custou R$ 10 e
foi assistido na Internet por mais de três
milhões de pessoas?
Na
verdade, não é a música,
mas sim a forma como ela é consumida
que está renascendo. O produtor musical
Eric de Fontenay acredita que canções
serão vendidas pela Internet, mas também
em lojas ou cafés. “Não
vendemos mais produtos, vendemos uma experiência
musical" – é o que diz o
produtor, e todos que fazem parte dessa nova
era. É uma onda musical que está
apenas começando.
Fonte:
Jornal da Globo
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